domingo, janeiro 09, 2011

Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher  que amo seja para sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

 Oswaldo Montenegro

terça-feira, dezembro 07, 2010

Cumplices


A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
É tanta vezes o que resta, do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só ate amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
Olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Mafalda Veiga

sexta-feira, novembro 12, 2010

Desfolhada




Corpo de linho 
lábios de mosto 
meu corpo lindo 
meu fogo posto. 

Eira de milho 

luar de Agosto 
quem faz um filho 
fá-lo por gosto. 


É milho-rei 
milho vermelho 
cravo de carne 
bago de amor 
filho de um rei 
que sendo velho 
volta a nascer 
quando há calor. 

Minha palavra dita à luz do sol nascente 
meu madrigal de madrugada 
amor amor amor amor amor presente 
em cada espiga desfolhada. 

Minha raiz de pinho verde 
meu céu azul tocando a serra 
oh minha água e minha sede 
oh mar ao sul da minha terra. 

É trigo loiro 
é além tejo 
o meu país 
neste momento 
o sol o queima 
o vento o beija 
seara louca em movimento. 

Minha palavra dita à luz do sol nascente 
meu madrigal de madrugada 
amor amor amor amor amor presente 
em cada espiga desfolhada. 

Olhos de amêndoa 
cisterna escura 
onde se alpendra 
a desventura. 
Moira escondida 
moira encantada 
lenda perdida 
lenda encontrada. 
Oh minha terra 
minha aventura 
casca de noz 
desamparada. 
Oh minha terra 
minha lonjura 
por mim perdida 
por mim achada. 



(Nuno Nazareth Fernandes 
Ary dos Santos) 

sábado, outubro 30, 2010

“Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. 
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.” 

Álvaro de Campos 

sexta-feira, outubro 29, 2010

Ontem à noite, depois da sua partida definitiva,
fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque,
fui para ali onde fico sempre no mês de junho,
esse mês que inaugura o Inverno. 

Tinha varrido a casa,
tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.

Estava tudo depurado de vida, isento,
vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever
para me curar da mentira de um amor que acaba.


Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas,
estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa,
e também aquilo que encerrava o todo,
o corpo e a roupa,
estes quartos,
esta casa,
este parque. 

E depois comecei a escrever... 


marguerite duras
textos secretos

quinta-feira, outubro 28, 2010

O andaime

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças -
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
Fernando Pessoa 
revista presença
1931

terça-feira, outubro 19, 2010

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Pur

Procuro um ponto branco no horizonte, onde a distancia nos apartou, num abraço de crença, ainda, num som, numa esperança que buscando, tudo no nosso universo desfaça o caos, em formas
sentidas de sentir.

Não há um dia que não me lembre, na tela que pintava sem mão, no sonho que não ergui, que vivi sem que os gestos o apaguem.

Procuro olhando, buscando, o sentido de mim.

sábado, julho 24, 2010

Chove...

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigada nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, julho 21, 2010

Com lento amor

Com lento amor.
olhava os dispersos tons da tarde. 
A ela comprazia perder-se na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado,
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar neste perplexo labirinto, 
olhava lá de fora as formas, 
o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.


terça-feira, junho 22, 2010

Amor

"Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. (...)
Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos."

Jose Luis Peixoto

sábado, junho 19, 2010

Tenho vergonha de um pais assim, tenho pena de tantos que não puderam ser vistos nas suas casas, de árvore de natal por detrás, em retrato de família, como ele. É arguido, ponto final!
Não sei se é culpado, pedófilo, comedor de crianças ou amigo dos animais, é arguido num processo que enoja, que cansa, que nos sai dos bolsos todos os dias.
É arguido, e ninguém tem ainda que eu saiba, que lhe pedir desculpas por isso, nem a ele, nem ao senhor primeiro ministro, contra quem nada se prova nem provará. Somo um povinho encolhido, com o sr Dr, sr Eng e aquele apresentador que dava uns prémios e ficava tão bem a divulgar o euro.
Que é isto?

sexta-feira, junho 18, 2010

terça-feira, junho 08, 2010

E quando a minha terra deixar de ter cores ou perfume, quando o frenesim da arrogância invadir a construção, quando for lume a paz e desvio o conhecimento, dormir? Aceitar a mediocridade como padrão? Calar uma voz que fala antes de a dizer? Claro que não. Antes disso, levo comigo uma mala, alegremente cheia de nada, que não quero carregar senão a mim, uma pouca de agua e uma bucha para o caminho!

quinta-feira, maio 06, 2010

"O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros,
para se sentirem fortes..."

Gandhi

sexta-feira, abril 30, 2010

Cheguei agora, é sexta feira, e eu escolhi, vou fazer uma feijoada de marisco, só para mim, tenho umas velas com cheiro a canela e morango, e vou à cidade iluminada, tenho saudades da vida e de uma conversa de amigas, com a promessa de falarmos do mesmo lado da margem.
Sinto-me renascida, meio dorida, meio dormente, sinto-me ausente do que me sentia, presente de uma nascente que me eleva, e eu não sei como se chama.
Peço a calma, peço a fé, quem me houvera saber mais, peço a luz mais que calor. Sem ofensas nem risadas, sem a vulgaridade orquestrada, sem a desigualdade ensaiada, sem procissões de fé. 
Hão-de haver raizes na terra.
Serei nascente um dia

Parvoives minhas

Conversa de "amigos"
- Olá meu amigo, estava aqui a pensar em ti e telefonei-te para saber como estás
- E estavas a pensar em quê?
- Estava a pensar em ti, só isso...
- (Silencio) ... Olha que isso é perigoso e eu posso confundir as coisas... (como quem diz, está bem, chama-me amigo que eu já te conto uma história)
Despacho a conversa e digo que tenho que sair

Na escola, conversa entre as "amigas" que já me dão doutos conselhos:
- Os arrumadores em Lisboa, metem-me medo, dou-lhes sempre dinheiro, nunca se sabe - Diz uma que agora pintou o cabelo e ficou mais velha.
- Esses para mim, são todos uns drogados, uns farrapos humanos, não têm remedio, nem sei o que andam aqui a fazer - Esta sabe sempre tudo
- Coitados, nem a familia quer saber deles, tenho uma vizinha que diz ao filho que mais valia ele estar morto do que andar a fazer aquelas figuras...
- Ah pois, e olha que para sair disso, é preciso muita força e eles não a têm, são fracos...
Na roda, ficou a faltar a minha opinião, ficou um silencio estranho enquanto eu acendi um cigarro e com um sabor aliviante, respirei fundo....
Amanhã aguardo outro debate do genero.
É por isso que o formigueiro à porta me parece cada vez mais interessante, e de distante, sou tão divertida.

Conversa de ladrões:
- Boa tarde, quero pagar o meu cartão de crédito agora
- Essa operação só é possivel entre o dia 2 e o dia 20 de cada mês.
- Porquê?
- Não lhe sei responder a essa pergunta, mas se pretender um cash-advance poderá fazer em qualquer  altura..
Fim de conversa, não apetece.

Isto num dia em que andei contentinha, amanhã vou comprar a Maria, para ver se me situo.

quarta-feira, abril 28, 2010

Faz-me o Favor




Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

terça-feira, abril 27, 2010

Permite-me que ecoe por aqui o que se
escreve dentro de mim: escrevo praias onde
nunca mergulhei, ouço conversas dos vizinhos que
doem como gritos, como criticas, como armas
arremessadas contra a minha sombra.

Como te disse: permite-me que me ecoe.
Evitei que me descongregasse pela terra, pensei
que assim poderia tocar-te no ombro e dizer-te
que estou aqui, onde tu não podes ver

onde as crianças não conseguem chegar
onde os velhos não conseguem viver.

Estou por aqui, enquanto te deixo permanecer
no cheiro que trago nas vestes, enquanto me dispo
e deixo que me vejas.

Agora tenho em lugar das minhas mãos uma grande
mancha azulínea, que me recorda que um dia aqui existiu
o mundo e que agora não há mais tempo
para nada.

Sérgio Xarepe- "Em lugar das mãos o mundo."

segunda-feira, abril 26, 2010

Medo

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Amalia